Nosso mundinho repetido

Em 1932, Aldous Huxley publicou Admirável Mundo Novo, aquele clássico que nos faz rir de nervoso: uma sociedade organizada pela promessa da felicidade imediata, onde todo mundo deveria ser sempre “leve” e “satisfeito”. O detalhe é que, ao relermos hoje, percebemos que não era apenas ficção futurista — era spoiler da vida moderna.

Acordamos na segunda-feira como quem acorda num laboratório: cercados de aplicativos que nos dizem quantos passos dar, quantas calorias comer e até quando respirar fundo para não enlouquecer. É o soma contemporâneo, só que em forma de cafeína, redes sociais e promessas de produtividade.

Enquanto Huxley brincava com a ideia de um mundo em que o tédio era proibido, nós vivemos exatamente o oposto: tédio travestido de rotina, mas com wi-fi. O “admirável” já virou ironia.

O “novo” se repete toda semana com boletos, notificações e aquele déjà vu chamado segunda-feira.

E ainda assim, continuamos folheando nossos dias como se fossem capítulos que poderiam, de repente, surpreender. Quem sabe? Talvez o admirável esteja justamente em rir do caos, em encontrar pequenas brechas de beleza entre um e-mail e outro, em transformar o peso das horas em pequenas histórias para contar.

No fim, Huxley não errou: vivemos em um admirável mundo novo, só que sem manual de instruções. E talvez seja melhor assim — porque escrever o nosso próprio capítulo ainda é a parte mais divertida do enredo.

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